Cualé negão: digaí!

Comentários nada isentos sobre um mundo parcial.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Nascido Culpado: perfil racial e pré-determinação do bandido











Um desses homens é um homicida. E aí? Qual deles?


***


Desta vez é sem ironia. Papo reto: não dá pra gente ficar calado diante das injustiças e não precisamos esperar que aconteça algo com um parente nosso para se revoltar.
Digo isso diante dos acontecimentos com o colega uspiano, Januário Santana, agredido covardemente por seguranças de um supermercado, acusado de roubar o próprio carro. Espancado e humilhado, Santana não obteve o devido socorro pela polícia militar, mesmo após ter provado a propriedade do veículo. É não só lamentável, mas revoltante o fato de ninguém ter acreditado que ele poderia ser o dono de um Ford Ecosport. Agora, ultrajante mesmo é confirmar, mais uma vez, que um homem negro não é tratado como ser humano, não possui os mesmos direitos, enfim, é constantemente enquadrado por possuir o racial profiling esperado pelo braço armado do Estado (de direito para uns e deveres para ouros).


Racial profiling é um conceito usado pelos estadunidenses para definir uma das formas de manifestação e perpetuação do racismo, precisamente a qual o seu Januário foi vítima. Significa “o uso da raça (e frequentemente nacionalidade ou religião) para identificar uma pessoa como um suspeito ou potencial suspeito”i de um crime. Ou seja, só pelo fato de ter a pele preta, um homem negro “é” o criminoso se estiver nas imediações de um furto de veículo. É aplicar na prática a suposta “piada”: “Preto parado é suspeito, correndo é ladrão”.
Passei algumas horas pensando nesse conceito. Se ele existe, ao menos é muito pouco usado na língua portuguesa. Não conheço lugares onde ele aparece, mas não duvido que existam. Uma tradução meio ao pé da letra poderia ser “Perfilização Racial” ou, com palavras mais sonoras aos nossos ouvidos, “Pré-conceituação Racial”. Aceito sugestões.
Contudo, seu Januário foi apenas uma vítima e, infelizmente, não está sozinho. O Dentista Flávio Sant'Ana há dois ou três anos atrás teve finalizada sua passagem pela terra via munição policial. Faleceu vítima de quem deveria estar pronto a lhe proteger. Seu crime? Ser preto e ter um carro não compatível com a “Pré-conceituação Racial” aceita pela sociedade como a norma. E tem cor essa norma? CLARO que sim: branca, com direito a origem geográfica na Europa, de preferência a parte ocidental. Um privilégio compartilhado não só por brasileiros.


Nos Estados Unidos, recentemente, o professor da Universidade de Harvard, Dr. Henry Louis Gate Jr., foi preso, acusado de roubar a própria casa e obrigou Obama a se pronunciar sobre a questão racial. A fala do presidente causou polêmica por dizer que o policial agiu de forma estupida, provocando posterior retratação pública da máxima autoridade daquele paísii. Na ocasião, o presidente disse que poderia ter calibrado melhor as palavras e convidou o professor e seu algoz para uma cerveja na Casa Branca. Dr. Gates, por sua vez, mantém  a disposição de rodar um documentário sobre esse tipo de ocorrência.

Como no Brasil, nem toda vítima de pré-conceituação racial sobrevive para encontros com autoridades. O caso de Oscar Grant chocou a comunidade negra na terra do Tio Sam e provocou noites de insônia a muita gente . Desarmado e pelas costas, esse jovem negro de 22 anos recebeu tiro fatal da polícia no metrô de Oakland, California. Segundo um afro-estadunidense nova-iorquino do Brooklyn, uma briga de guangues ocorria na estação. Os cops chegaram, deteram alguns do brigões e, entre os imobilizados, estava Grant. O negão, ao se mexer, mesmo de cara pro chão, foi alvejado. Como tudo isso acontecia na plataforma, com um trem parado e lotado, advinha: dezenas de vídeos estão no You Tube e mostram, de diferentes ângulos o momento do assassinato. Show? Só for de horroriii.

Agora me digam, como podemos permanecer calados? Como aceitar tantas discrepâncias e mazelas sociais e raciais num país como o Brasil? Nos Estados Unidos, a cada 9 homens negros, 1 está na cadeia. E no Brasil, a quantos homens estamos? Já pensou quantas vítimas de pré-conceituação racial não existem numa detenção? Já pensou nos morros e favelas, sejam cariocas ou paulistanos, como se dão esses crimes, lugares onde o filho chora e a mãe, mesmo se ver, não pode contar nada para ninguém.


Se alguém me perguntar o que farei, concretamente, a partir de amanhã,não sei. Sejá lá o que for, não se espatem se começar resolver pendengas a base do olho no olho. E sei que não serei o único a fazer isso.



i Tradução minha da definição contida no seguinte sítio da rede mundial de computadores: <http://understandingrace.org/resources/glossary.html#r>, acesso em 01/10/2009. Transcrição: racial profiling: the use of race (and often nationality or religion) to identify a person as a suspect or potential suspect. Racial profiling is one of the ways that racism is manifested and perpetuated.


ii Obama Voices Regret to Policeman. In: <http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2009/07/24/AR2009072400451.html>, acesso em 02/10/2009.



iiiEu consultei alguns artigos, dois amigos dos estados e o google para construir este parágrafo. Assistir ao assassinato do rapaz no You Tube, como a polícia e a população reagiram pede estômago. Se você tem. Eu fiquei estarrecido. De qualquer maneira, segue o link: <http://www.google.com/search?ie=UTF-8&oe=UTF-8&sourceid=navclient&gfns=1&q=oscar+grant>, acesso em 02/10/2009.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Terra Adorada Brasil




O Brasil não é um país racista. Nós sabemos disso. Nosso mais proeminente guru intelectual tem nos ensinado que esses professores da USP não passam de monstros tristonhos, malucos que querem dividir o país em raças. Charlatões Acadêmicos[1].  Eles juntam, simplesmente, num artifício retórico os dados do IBGE (pardos e pretos) e os transformam em negros para justificar políticas de ações afirmativas para uma fraternidade inventada[2]. Como pode isso? Esses intelectuais...





Ao lado, peça publicitária de uma fábrica de roupas: olha só que discurso bonito. Não é um orgulho ser brasileiro!










 Mas não vamos parar por aí. Nosso sociólogo e geógrafo (ou será geógrafo e sociólogo? Vou perguntar a ele como prefere que o identifique da próxima vez) tem mais a nos ensinar. Acho melhor usar as próprias palavras dele para não incorrer em erros:
“NO VESTIBULAR da UnB (Universidade de Brasília), um hipotético filho do ministro Joaquim Barbosa, do STF, com renda familiar de várias dezenas de salários mínimos, que estudou nos melhores colégios particulares, optante do sistema de cotas raciais, precisaria de menos pontos para ser aprovado que um estudante de escola pública de pele clara, filho de trabalhadores, com renda familiar de três salários mínimos. Como sustentar a constitucionalidade e a justiça disso?” (MAGNOLI, 2009b, p. 3).

Realmente, isso é uma maluquice. Como pode um rico  com menos mérito, querer a vaga de um branco esforçado e estudioso (o filho do ministro do STF  citado no artigo  é hipotético, mas vai que um filho de jogador de futebol não esteja nessas condições)? Se aqui no Brasil não houve segregação, não houve apartheid, o que eles querem? E quem é esse DuBois, racista citado no artigo da Folha de São Paulo? Como meu guru nem citou a fonte ou muito menos comentou sua trajetória, ele não deve ser lá grande coisa. Do tal do Boaventura Santos, também citado, nem comento. Deve ser uma mau-aventurado, por que além de ser de esquerda, não importa se da nova ou da velha, ele “usa seu dom de iludir para vestir a política de raça com a fantasia de um programa de redenção social”[3].







Anote aí o site. Repare que tem filial na Bahia. Que delícia!





E iludem mesmo, porque as cotas estão se espalhando pelas universidades públicas, com diversas configurações. Meu guia, com muita inventividade, afirma que foram instaurados “tribunais racias”[4], os quais podem suscitar conflitos entre nossos irmãos brasileiros. Mais uma vez, deixo meu guru dizer para não atravessar sua sabedoria com palavras tolas:
A raça é uma fraternidade de sangue: uma irmandade inventada a partir de descendências imaginárias. Dividir o Brasil em raças oficiais, o pressuposto dos sistemas de cotas raciais, equivale a optar por esse tipo de fraternidade, em detrimento da "irmandade dos cidadãos" [aquela da revolução francesa]. É curioso, e um tanto trágico, que se tente sustentar tal programa com um discurso de esquerda. Mas é um sinal dos tempos...[5]
Em vez de ficarem falando de cotas, esse pessoal deveria falar é de escolas públicas, divagar sobre os ideais republicanos. Nosso problema é social. Não temos problema nenhum com os negros e índios. Quando eles são queimados, não é racismo, somente são confundidos com mendigos. Quando são espancados por seguranças em hipermercados, não é racismo, é um desvio de procedimento dada a reação do homem (negro), que correu. Não estou querendo lembrar a piada: negro quando corre é atleta ou ladrão. Pelo contrário, só quero afirmar que fatos como esses são lamentáveis, mas não é reservando vaga na universidade que vamos acabar com esses desvios. Vocês não lembram do dentista (negro) que a política matou? A polícia suspeitou que o carro não era dele também. Aí! Ah moleque! Meu guru agora vai ficar orgulhoso, pois acabei de chegar no argumento que faltava para acabar de vez com essa papagaiada: as cotas não prestam porque não vão mudar nada. Dentista também morre por engano. Tá vendo, mentor tá certo. Esses intelectuais negros me saem com cada uma...




  É isso mesmo, vovê não está vendo errado. Esses são os modelos do país multirracial da coleção "Terra Adorada". Distração do marqueteiro? Mas não tem filial na Bahia?
Talvez, a mistura de raça da equipe de trabalho desse material seja germãnica, anglosaxonica com um pouco de celtas ou castelanos.
No Brasil não há rascimo, há abuso da nossa ignrância.



Para finalizar: O “monstro tristonho” Kabengele Munanga é professor titular de antropologia da USP e tem um livro muito interessante "Rediscutindo a mestiçagem no Brasil".  O “mau-aventurado”,  Boaventura de Sousa Santos é professor catedrático de Sociologia na Universidade de Coimbra. Ambos, como eu, não defendem a existência de raças biologicamente definidas. Pelo contrário, tenho aprendido com eles e muitos outros que a divisão racial é uma criação da sociedade branca e ocidental,  utilizada como estratégia para manutenção do poder e concentração de recursos materiais nas mãos de uma elite que tem cor de pele sim: branca. Por essa razão, reivindicam-se políticas étnico-raciais de ação afirmativa e desconheço alguma proposta melhor para resolver as desigualdades sociais provocadas pelo racismo.
Quanto ao DuBois, classificá-lo de racista é de uma ignorância tremenda sobre sua obra. Primeiro porque um homem que viveu mais de 90 anos não tem uma opinião só sobre o mesmo assunto e a chance de se contradizer é grande. De qualquer modo, sem contextualizá-lo em sua época, não podemos criticá-lo com os conceitos e estudos que temos hoje. Mesmo assim, ele foi um dos primeiros cientistas sociais a usar a separação de Franz Boas entre raça e cultura, fundamento de toda antropologia social moderna, ou seja, não defendia uma sociedade divida em raças como formulado pelo biologia de sua época. Além do mais, DuBois foi o primeiro negro a receber o título de doutorado pela Harvard no final do séc. XIX. Durante seu doutoramento chegou a morar na Alemanha e estudou com Weber (inclusive este pediu ao americano para escrever a introdução para versão alemã do clássico As almas da gente negra, publicado em inglês no ano de 1903). Como sociólogo, sua contribuição é imensa: primeiro sociólogo das relações raciais no mundo, primeiro sociólogo da religião nos Estados Unidos, primeiro a entender o crime como objeto de estudo sociológico[6]. Por que o "guru" não falou isso? Por que ele não comenta outros conceitos de DuBois, como a dupla consciência do mestiço ou do negro trazido forçosamente para América?
E você, já se encontrou com seu racismo hoje? Então leia a tirinha abaixo para não perder o costume:





Ilustração 2 - Folha de São Paulo, 14/08/09

Mais fotos da nossa democracia racial propagandeada pela "Minas Brasil", vá ao site: http://www.minasbrasil.ind.br/colecao_mb/index.htm

 





[1] Magnoli. Monstros Tristonhos. O Estado de São Paulo, 14/09/2009a.
[2] Magnoli. O dom de Iludir. Folha de São Paulo, 09/09/2009b, p. 3.
[3] Ibidem
[4] Magnoli, op. cit, 2009a.
[5] Idem. op. cit., 2009b.
[6] Philipe Zuckerman (Organizador). The Social Theory of W. E. B. Du Bois.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Um Atlântico em Minas Gerais


no ouvido:
Onde a dor não tem razão
Paulinho da Viola



Noite de sábado e o samba comia solto. A lua estava encheiando na companhia de algumas nuvens, cujos olhos denunciavam tanta emoção, mas tanta emoção, que estavam a ponto de fazerem o céu chorar. Nem todo choro é de tristeza e água no chão é sinal de vida futura. Entretanto, não era dia de tomar banho de chuva, e as lágrimas celeste nos fizeram sentar numa mesa sob um teto..
No meio daquele povo amontoado, ela apareceu e abraçou uma amiga de infância. Centenas de cabeças, milhões de cabelos espichados, mas só tinha olhos àquela repleta de ondas do mar, um verdadeiro Atlântico cor de mel escuro. Fomos apresentados e nossas mãos, uma na outra, deslizaram num comprimento cheio da malícia do tempo sem pressa. Em meu pensamento, escorregamos também o braço esquerdo, movendo nossos corpos em sentidos opostos, unindo ambos num abraço juntinho, bem juntinho um do outro. Não gosto da sensação de frio na barriga, principalmente aquela que trava a bacia, contrai o sfrincter e puxa um musculozinho abaixo do púbis, mas senti.
Olhos nos olhos, ouvi de sua boca “muito prazer”. “O prazer é todo meu”, respondi, mas pensava mesmo em fazê-lo nosso. Mel, ela tem igualmente mel no nome. Desde então tenho pensado: será seu beijo tão doce quanto o fruto do trabalho das abelhas? Sua florada é de laranjeira ou de eucalipto? Existe mel de rosas vermelhas com canela? Eu quero! Será que ela tem zangão? Será? “Ela tem” e a verdade revelada assemelhou-se a picada de uma abelha. Tanta dor só pôde vir de uma abelha africana.
Não tinha tempo para amofinar e respondi do meu canto. No vai e vem do gingado das pernas e mexer das ancas, nos somávamos um ao outro, a distância e no sonho. Sambava e a fitava por inteiro, desejava uma roda onde correríamos eu e ela, coxa com coxa, no miúdo do miudinho. O corpo suando. Imaginava o depois da festa, o polegar opositor unido ao indicador no ofício de tirar o “tomara” e ordenar “que-caia” o vestido. Fantasiei inúmeras vezes o empurrãozinho final naquela alça provocativamente meia-caidinha: com seu perfume assim, coladinho na ponta do meu nariz, precipitaria todo tecido ao chão e sambaríamos deitados madrugada afora.
Uma semana se passou. No dia seguinte, a cachoeira não conseguiu lavar minha alma, nem me navegar a casa dela. A semana chuvosa cobriu de entulhos a curva do rio, isolando o caminho de volta para cabana onde mora a saudade. Tomo cachaça, mas não tomo tento e meu estoque de pensamento se perdeu no sul das gerais.




XIII Revelando São Paulo

A gente sempre está pronto pra sentar a língua nos que os outros fazem. Eu mesmo estou aqui limpando o veneno que escorre pelos cantinhos dos meus lábios. É que o Revelando São Paulo, evento organizado pelo Abaçai, ocorre a treze anos, todos sob a governância tucana. Quando fala em Tucano, 45, PSDB, tenho uma coçeira danada, mas dessa vez vou fazer esforço pra ver se me controlo e esperar o evento acontecer.

De qualquer maneira, é uma oportunidade ímpar de ver o que a negrada vem fazendo e mantendo vivo e recriando pelo interior de São Paulo. Diversos encontros de formas distintas de expressões culturais acontecem nesses dias, como o de irmandades do Rosário e de São Benedito, das guardas de Congo e Moçambique, de Tambores, Viola... é melhor ler a programação que todo mundo ganha mais, eu tempo e vocês informação precisa:

http://www.abacai.org.br/revelando_programacao.php

O evento ocorre no Pq. da Água Branca, perto do metrô Barra-Funda.

Quem for, saiba desde já que uma das melhores coisas no revelando é o Rancho Caipira. Querelinha, Vaca Atolada, Cumpim com Alho... (aí meu deus... limpa, mas agora não é veneno, é baba). Com direito a uma marvada crapichada e artesanal.

No dia 13, das 16h às 21h, além do Relevando, bem pertinho, dá pra ir pé para a Pílula de Cultura com o tema "AfroSambaRock". Local:  Casa das Caldeiras, na Av. Francisco Matarazzo, 2000.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Viu só o que foi aprovado? O Estatuto da Igualdade Racial e o Hino à Negritude

Parece até que estão se importando com a gente na Câmara dos Deputados. Ontem, dia 09/09/09, foi aprovado o Estatuto da Igualdade Racial (PL 6264/2005)pela comissão especial da designada para discutir o projeto. E hoje, dia 10/09/2009, foi aprovado "a oficialização em todo o território nacional do Hino à Negritude, composto pelo poeta e professor Eduardo de Oliveira" (PL 2445/07), como diz a reportagem da Agência Câmara. Ambos PLs seguem para análise do Senado.

Fiquei tentanto entender por horas porque a comissão aprovou e os projetos vão para o senado sem passar pelo plenário. Para lá, só vãos os projetos que não são encerrados de forma conclusiva pelas comissões da câmara, isto é, nossos legisladores não entram em consenso. Estranho né. Fiquei confuso com isso, mas é o que está no regimento. Preciso de mais tempo para formular uma opinião mais coerente, mas a princípio, o acordão feito para o DEM parar de barrar o projeto do estatuto, seguir seu caminho e ser aprovado pela outra casa do congresso nacional antes do 20 de novembro retira pontos importantíssimos do texto original.

Caíram, por exemplo, a obrigatoriedade das cotas. O texto atual diz que o governo federal deve incentivar as ações afirmativas e que as universidades podem fazê-lo através das cotas. Perdem, também, os quilombolas, com a retirada da polêmica (pra quem?) definição de remanescente de quilombo, comprometendo as garantias da demarcação de terras. A obrigatoriedade de cotas na mídia e a diminuição de 30% para 10% de candidatos negros nas eleições foram outros retrocessos em relação a primeira redação do projeto.

Para o ministro Edson Santos, o senador Paulo Paim (PT-RS) e o deputado Luiz Alberto (PT-BA, a aprovação deve ser comemorada como um avanço conquistado pelo movimento negro. O deputado Damião Feliciano (PDT-PB) disse que perdemos muito e foi aprovado um estatuto desidratado. Os quilombolas não foram consultado pela agência câmara, mas sabemos que eles devem estar putos.

Apesar de tudo, o avanço é grande. Garantias de maior estudo e tratamento a anemia falciforme, origatoriedade de se ensinar a História Geral da África e dos seus descendentes no Brasil, o reconhecimento da Capoeira e seus mestres como desporto nacional em todas as modalidades (esporte, luta, dança ou música são pontos importantes do texto aprovado.

No capítulo III, que trata da liberdade religiosa, fiquei feliz com a redação do Art. 27: "É assegurada a assistência religiosa aos praticantes de religiões de matrizes africanas internados em hospitais ou em outras instituições de internação coletiva, inclusive os submetidos a pena de privação de liberdade". Isso encerra uma das grandes disparidades em relação a nossa religiosidade, que sempre enfrentou dificuldades em executar seus preceitos em paz, como é de nosso direito.

A discussão do estatuto se arrastou por quase dez anos, não sei bem sobre isso ainda. Porém, esse projeto (PL 6264/2005) está em tramistação desde (óbviamente) 2005. Com tantas idas e vindas, é um alento. Tenho ao menos a pretensão de nos próximos dias saber como ele foi redigido e quais as mudanças na versão aprovada pela Câmara. Desde já, contudo, é ter o imperativo de colocar o estatuto na pauta dos nossos estudos, seminários, debates. As conquistas, devemos garantí-las como temos garantido a lei 10639/2003: fazendo muito barulho e arrombando as brechas do sistema. Agora temos até hino para cantar!

Corre Atrás:

Agência Câmara:




No portal da Rede Mocambos, comentários e link para download do texto aprovado em .rtf



Em solidariedade ao Seu Januário, em memória de Flávio Sant'ana.

Em homenagem a tantos e tantas irmãs confundidos por bandidos, enquanto os maiores do nosso país são brancos e dizem trabalhar em Brasíliam.

Chega!

Nós e nossos filh@s temos o direito de ter o carro, a casa, a roupa e a vida que quisermos.

Ato Antirracista na USP
18h
Prédio da História/Geografia - Espaço Aquário

domingo, 16 de agosto de 2009

Diga a mãe que eu cheguei...

Nascido nas bandas da ZL, na entrada de Itaquera, vi minha mãe perder emprego por não ter "boa aparência". Mamãe sem emprego, papai morando em outra casa e as crianças, ficam como? Pois é, eu acabei ficando com livros, uma bola de basket, duas vós, um vô e algumas tias; primos, primas e irmãs. Alguns amigos também. Enquanto isso, minha coroa de azeviche ia batalhar algum pro nosso sustento. Posso afirmar, com ar de alívio: o pão nunca se ausentou da mesa de casa, nem o arroz do almoço ou o feijão na janta. Felizmente, posso dizer que não passei fome, mas tive de engolir muito sapo e mastigar diversas vontades.

O efeito pedagógico do não foi devastador: hoje tenho orgulho de ser filho de quem sou. A cada dia, mais e mais, percebo as belezas e os fossos de onde estou. Quanto mais estudo, mais tenho certeza de por quem devo ser. É nesta pegada que sigo firme pra dar aos meus filhos o que jamais me faltou ao crescer - AMOR: verbo a ser conjugado em todos os tempos deste blog.