no ouvido:
Onde a dor não tem razão
Paulinho da Viola
Noite de sábado e o samba comia solto. A lua estava encheiando na companhia de algumas nuvens, cujos olhos denunciavam tanta emoção, mas tanta emoção, que estavam a ponto de fazerem o céu chorar. Nem todo choro é de tristeza e água no chão é sinal de vida futura. Entretanto, não era dia de tomar banho de chuva, e as lágrimas celeste nos fizeram sentar numa mesa sob um teto..
No meio daquele povo amontoado, ela apareceu e abraçou uma amiga de infância. Centenas de cabeças, milhões de cabelos espichados, mas só tinha olhos àquela repleta de ondas do mar, um verdadeiro Atlântico cor de mel escuro. Fomos apresentados e nossas mãos, uma na outra, deslizaram num comprimento cheio da malícia do tempo sem pressa. Em meu pensamento, escorregamos também o braço esquerdo, movendo nossos corpos em sentidos opostos, unindo ambos num abraço juntinho, bem juntinho um do outro. Não gosto da sensação de frio na barriga, principalmente aquela que trava a bacia, contrai o sfrincter e puxa um musculozinho abaixo do púbis, mas senti.
Olhos nos olhos, ouvi de sua boca “muito prazer”. “O prazer é todo meu”, respondi, mas pensava mesmo em fazê-lo nosso. Mel, ela tem igualmente mel no nome. Desde então tenho pensado: será seu beijo tão doce quanto o fruto do trabalho das abelhas? Sua florada é de laranjeira ou de eucalipto? Existe mel de rosas vermelhas com canela? Eu quero! Será que ela tem zangão? Será? “Ela tem” e a verdade revelada assemelhou-se a picada de uma abelha. Tanta dor só pôde vir de uma abelha africana.
Não tinha tempo para amofinar e respondi do meu canto. No vai e vem do gingado das pernas e mexer das ancas, nos somávamos um ao outro, a distância e no sonho. Sambava e a fitava por inteiro, desejava uma roda onde correríamos eu e ela, coxa com coxa, no miúdo do miudinho. O corpo suando. Imaginava o depois da festa, o polegar opositor unido ao indicador no ofício de tirar o “tomara” e ordenar “que-caia” o vestido. Fantasiei inúmeras vezes o empurrãozinho final naquela alça provocativamente meia-caidinha: com seu perfume assim, coladinho na ponta do meu nariz, precipitaria todo tecido ao chão e sambaríamos deitados madrugada afora.
Uma semana se passou. No dia seguinte, a cachoeira não conseguiu lavar minha alma, nem me navegar a casa dela. A semana chuvosa cobriu de entulhos a curva do rio, isolando o caminho de volta para cabana onde mora a saudade. Tomo cachaça, mas não tomo tento e meu estoque de pensamento se perdeu no sul das gerais.

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