O Brasil não é um país racista. Nós sabemos disso. Nosso mais proeminente guru intelectual tem nos ensinado que esses professores da USP não passam de monstros tristonhos, malucos que querem dividir o país em raças. Charlatões Acadêmicos[1]. Eles juntam, simplesmente, num artifício retórico os dados do IBGE (pardos e pretos) e os transformam em negros para justificar políticas de ações afirmativas para uma fraternidade inventada[2]. Como pode isso? Esses intelectuais...
Ao lado, peça publicitária de uma fábrica de roupas: olha só que discurso bonito. Não é um orgulho ser brasileiro!
Mas não vamos parar por aí. Nosso sociólogo e geógrafo (ou será geógrafo e sociólogo? Vou perguntar a ele como prefere que o identifique da próxima vez) tem mais a nos ensinar. Acho melhor usar as próprias palavras dele para não incorrer em erros:
“NO VESTIBULAR da UnB (Universidade de Brasília), um hipotético filho do ministro Joaquim Barbosa, do STF, com renda familiar de várias dezenas de salários mínimos, que estudou nos melhores colégios particulares, optante do sistema de cotas raciais, precisaria de menos pontos para ser aprovado que um estudante de escola pública de pele clara, filho de trabalhadores, com renda familiar de três salários mínimos. Como sustentar a constitucionalidade e a justiça disso?” (MAGNOLI, 2009b, p. 3).
Realmente, isso é uma maluquice. Como pode um rico com menos mérito, querer a vaga de um branco esforçado e estudioso (o filho do ministro do STF citado no artigo é hipotético, mas vai que um filho de jogador de futebol não esteja nessas condições)? Se aqui no Brasil não houve segregação, não houve apartheid, o que eles querem? E quem é esse DuBois, racista citado no artigo da Folha de São Paulo? Como meu guru nem citou a fonte ou muito menos comentou sua trajetória, ele não deve ser lá grande coisa. Do tal do Boaventura Santos, também citado, nem comento. Deve ser uma mau-aventurado, por que além de ser de esquerda, não importa se da nova ou da velha, ele “usa seu dom de iludir para vestir a política de raça com a fantasia de um programa de redenção social”[3].
Anote aí o site. Repare que tem filial na Bahia. Que delícia!
E iludem mesmo, porque as cotas estão se espalhando pelas universidades públicas, com diversas configurações. Meu guia, com muita inventividade, afirma que foram instaurados “tribunais racias”[4], os quais podem suscitar conflitos entre nossos irmãos brasileiros. Mais uma vez, deixo meu guru dizer para não atravessar sua sabedoria com palavras tolas:
A raça é uma fraternidade de sangue: uma irmandade inventada a partir de descendências imaginárias. Dividir o Brasil em raças oficiais, o pressuposto dos sistemas de cotas raciais, equivale a optar por esse tipo de fraternidade, em detrimento da "irmandade dos cidadãos" [aquela da revolução francesa]. É curioso, e um tanto trágico, que se tente sustentar tal programa com um discurso de esquerda. Mas é um sinal dos tempos...[5]
Em vez de ficarem falando de cotas, esse pessoal deveria falar é de escolas públicas, divagar sobre os ideais republicanos. Nosso problema é social. Não temos problema nenhum com os negros e índios. Quando eles são queimados, não é racismo, somente são confundidos com mendigos. Quando são espancados por seguranças em hipermercados, não é racismo, é um desvio de procedimento dada a reação do homem (negro), que correu. Não estou querendo lembrar a piada: negro quando corre é atleta ou ladrão. Pelo contrário, só quero afirmar que fatos como esses são lamentáveis, mas não é reservando vaga na universidade que vamos acabar com esses desvios. Vocês não lembram do dentista (negro) que a política matou? A polícia suspeitou que o carro não era dele também. Aí! Ah moleque! Meu guru agora vai ficar orgulhoso, pois acabei de chegar no argumento que faltava para acabar de vez com essa papagaiada: as cotas não prestam porque não vão mudar nada. Dentista também morre por engano. Tá vendo, mentor tá certo. Esses intelectuais negros me saem com cada uma...
É isso mesmo, vovê não está vendo errado. Esses são os modelos do país multirracial da coleção "Terra Adorada". Distração do marqueteiro? Mas não tem filial na Bahia?
Talvez, a mistura de raça da equipe de trabalho desse material seja germãnica, anglosaxonica com um pouco de celtas ou castelanos.
No Brasil não há rascimo, há abuso da nossa ignrância.
Para finalizar: O “monstro tristonho” Kabengele Munanga é professor titular de antropologia da USP e tem um livro muito interessante "Rediscutindo a mestiçagem no Brasil". O “mau-aventurado”, Boaventura de Sousa Santos é professor catedrático de Sociologia na Universidade de Coimbra. Ambos, como eu, não defendem a existência de raças biologicamente definidas. Pelo contrário, tenho aprendido com eles e muitos outros que a divisão racial é uma criação da sociedade branca e ocidental, utilizada como estratégia para manutenção do poder e concentração de recursos materiais nas mãos de uma elite que tem cor de pele sim: branca. Por essa razão, reivindicam-se políticas étnico-raciais de ação afirmativa e desconheço alguma proposta melhor para resolver as desigualdades sociais provocadas pelo racismo.
Quanto ao DuBois, classificá-lo de racista é de uma ignorância tremenda sobre sua obra. Primeiro porque um homem que viveu mais de 90 anos não tem uma opinião só sobre o mesmo assunto e a chance de se contradizer é grande. De qualquer modo, sem contextualizá-lo em sua época, não podemos criticá-lo com os conceitos e estudos que temos hoje. Mesmo assim, ele foi um dos primeiros cientistas sociais a usar a separação de Franz Boas entre raça e cultura, fundamento de toda antropologia social moderna, ou seja, não defendia uma sociedade divida em raças como formulado pelo biologia de sua época. Além do mais, DuBois foi o primeiro negro a receber o título de doutorado pela Harvard no final do séc. XIX. Durante seu doutoramento chegou a morar na Alemanha e estudou com Weber (inclusive este pediu ao americano para escrever a introdução para versão alemã do clássico As almas da gente negra, publicado em inglês no ano de 1903). Como sociólogo, sua contribuição é imensa: primeiro sociólogo das relações raciais no mundo, primeiro sociólogo da religião nos Estados Unidos, primeiro a entender o crime como objeto de estudo sociológico[6]. Por que o "guru" não falou isso? Por que ele não comenta outros conceitos de DuBois, como a dupla consciência do mestiço ou do negro trazido forçosamente para América?
E você, já se encontrou com seu racismo hoje? Então leia a tirinha abaixo para não perder o costume:

Ilustração 2 - Folha de São Paulo, 14/08/09
Mais fotos da nossa democracia racial propagandeada pela "Minas Brasil", vá ao site: http://www.minasbrasil.ind.br/colecao_mb/index.htm
Mais fotos da nossa democracia racial propagandeada pela "Minas Brasil", vá ao site: http://www.minasbrasil.ind.br/colecao_mb/index.htm

Em que texto esse idiota chamou o Du Bois de racista? Demetrio já passou dos limites da falta de educação. Ele se tornou o símbolo da cruzada contra as ações afirmativas e está vendendo livro a rodo. Pilantra!
ResponderExcluirAbs
Flávio